Introdução
Num género cujo dinamismo e mutação constantes não são tão notados como na realidade acontecem, Xasthur surge como uma inovação, não de um ponto de vista estrutural, mas como um extremar e numa toada de levar mais longe algo que já tinha, de alguma forma, sido anteriormente fundado.

Na prática, projectos como Strid, Silencer (ambas as bandas de uma forma mais típica do estilo, embora com elementos distintos do que geralmente existe no BM, mas acima de tudo Mütiilation (antigo projecto das LLN e que tem direito a uma cover neste álbum, o que mostra a sua influência em Xasthur) já tinham nos seus lançamentos a partir do meio dos anos 90, materializado o que hoje se convenciona chamar Depressive Black Metal ou mais recentemente SDBM (Suicidal Depressive Black Metal), mas Scott Conner (nome pouco reconhecido, mas que é o verdadeiro nome por detrás de Malefic) levou o conceito aos limites da sua vertente mais violenta e sufocante.

Logo nos primeiros trabalhos compreende-se a estética negra e melancólica do projecto de Malefic, através de uma produção enterrada e desconexa, com influências claras da fase mais ambiental de Burzum. Aliás, estaria longe de imaginar em 1996, um dos mais geniais compositores de Metal dos anos 90, quando lançou as bases para um “devaneio” estético dentro do BM. Falo claro de ‘Filosofem’, última demonstração extrema pelas mãos de Varg.
De um ponto de vista morfológico, Burzum é, inclusive, uma influência por demais evidente, uma vez que depois de Malefic abandonar a ideia de ter uma banda, concentrou-se apenas ele em Xasthur.

No entanto, Malefic vai (musical e conceptualmente) mais além, pois por detrás do projecto há um objectivo claro, uma ideia fixa e fomentar a extinção da raça humana, num impulso claramente misantrópico e que é inerente à própria pessoa do mentor do projecto.

Em 1999, e já como um projecto individual na sua totalidade, começam os primeiros split’s, demos e EP’s, lançando fortes indicações do que viria a ser lançado neste primeiro álbum, em 2002.
Em Nocturnal Poisoning, Xasthur confirma-se como um projecto extremo, onde a misantropia e a intenção clara de enterrar de enterrar em depressão as almas que se cruzem com a índole perturbadoramente depressiva de Xasthur, se tornam em algo magistralmente transposto numa (negra) obra-prima sonora.

Alinhamento
01 – In The Hate Of Battle
02 – Soul Abduction Ceremony
03 – A Gate Through Bloodstained Mirrors
04 – Black Imperial Blood
05 – Legion Of Sin And Necromancy
06 – A Walk Beyond Utter Blackness
07 – Nocturnal Poisoning
08 – Forgotten Depths Of Nowhere

Ano 2002

Editora Blood Fire Death

Faixa Favorita 01 – In The Hate Of Battle

Género (Depressive) Black Metal

País EUA

Banda
Malefic (Scott Conner) – Todos os Instrumentos, Voz.

Review
Uma das primeiras impressões que se tem de Xasthur é o carácter perturbante das músicas, quando absorvidas no seu total desespero e melancolia. Não falo numa tentativa de ouvir a banda como se de uma banda de (Black) Metal mais típico se tratasse, mas sim de uma verdadeira forma de deixar a invasão sonora do projecto de Malefic penetrar na mente, com toda a sua intensidade. Ai, até mais do que tristeza, misantropia, desolação, sentimentos depressivos e suicidas, temos um vazio perturbador, algo pior que a negatividade, simplesmente uma paisagem sonora monocromática, tão forte que inutiliza os sentidos e o pensamento.

Talvez este efeito de afastamento e palidez, seja provocado pela antítese que representa a existência de Xasthur, projecto fundado num dos mais agitados estados dos Estados Unidos. Quando se vive na Califórnia, como Scott Conner vive, os sentimentos negativos são uma ilha no meio das sensações antagónicas aqui presentes.

Tudo em Xasthur é pouco convencional. As estruturas das músicas (cinco das oito neste álbum a superar os sete minutos de duração) são muito diferentes do habitual, mesmo em relação ao BM, com várias variações de ritmo constantes, um forte uso de teclados e sobreposição de guitarras. A produção é enterrada e crua, mas sempre deixando ouvir com clareza os elementos presentes, criando assim uma atmosfera intensa e sufocante, factor este que é marca distinta de Xasthur. Aliás, quando se fala numa produção adequada à intencionalidade do álbum, Nocturnal Poisoning adequa-se na perfeição. Uma produção demasiado límpida e cristalina tiraria parte do sentimento de distância e vazio que se prolonga durante todas as faixas, além de que se perderia grande parte da atmosfera nas músicas. É, portanto, a produção adequada para o efeito desejado e neste aspecto tem que se salientar o brilhantismo de Scott Conner, sobretudo em relação ao volume e momento em que cada elemento (particularmente voz, guitarras e teclados) surge nas músicas.

Falando dos elementos principais neste álbum de estreia, os teclados são provavelmente o instrumento mais distinto em todo o álbum. Existe um forte uso de sintetizadores para criar uma atmosfera intensa, ora melancólica, ora caótica, ora simplesmente triste. Aliás, musicalmente falando, será talvez o único instrumento com momentos mais complexos (a beleza de Xasthur está em muito associada ao minimalismo do projecto), muitas vezes surgindo apenas como pequenos lamentos, numa fúria caótica e desordenada, ou simplesmente extraordinariamente melancólicos. Os momentos criados pelos sintetizadores (falo no plural, porque muitas vezes são vários que são ouvidos durante o álbum) são muito belos, mas ao mesmo tempo de uma melancolia e desolação extremas. São como que a “outra voz” nas músicas, criando uma atmosfera densa e negra que caracteriza o álbum e até o próprio projecto em si (distingui-o claramente de outras bandas do género e que se colaram, com melhores ou piores resultados, ao conceito de Xasthur).
No entanto, não se espere teclados com um elevado cariz épico (são-no até certo ponto, mas numa interpretação muito própria de Malefic) e integrados num conceito de beleza comum ou tão pouco como são utilizados pela maioria das bandas do estilo. São por vezes os elementos mais demonstrativos de toda a dolorosa raiva que inunda o trabalho, contrastando com a sua habitual função puramente atmosférica (que, como já referi, também a tem) e transcendendo-se para uma angustiante beleza, onde a solidão reina e tudo surge como estando no eterno sofrimento.

Por seu turno, as guitarras têm um papel menos evidente que os teclados. São executadas com vários riffs repetidos de forma exaustiva, extremamente distorcidas e muitas vezes sobrepostas, formando o som “enterrado” que se ouve em todo o álbum. É de notar, no entanto, que à semelhança dos teclados, também é muitas vezes o elemento a dar uma áurea depressiva às músicas.
O baixo não é muito audível (o que não é novidade no estilo e sobretudo compreende-se pelo objectivo que Xasthur encerra) e quando é ouvido está geralmente integrado de forma simples nas faixas.
No que diz respeito, à bateria, esta é tocada por uma “drum machine”, pelo que não há muito a dizer. Marca a passagem de ritmos de forma mais acentuada e de forma exacta, mas não representa um elemento distinto no álbum, o que tal como o baixo não é novidade e não é de forma alguma negativo, pois o objectivo do álbum não é focar estes elementos individualmente, mas sim torná-los parte de um todo, em si genial.

Chegamos por fim à voz. E falamos aqui no mais inumano elemento do álbum. Os vocais de Malefic, além de bastante enterrados na mistura final, encerram em si o objectivo principal do álbum: um hino ao suicídio, através da dor, melancolia, depressão, ódio, raiva e negatividade em geral. São guturais rasgantes (a lembrar os de Varg nos primórdios mas ainda mais arrepiantes), autênticos calafrios na espinha devido à sua grotesca beleza. As vocalizações não são parte constante das faixas, mas quando surgem, são momentos incríveis e que completam ainda mais o álbum, tornando-o ainda numa maior obra-prima do que já seria, caso fosse puramente instrumental. Aliás, a voz de Malefic é algo incrível de ouvir, seja em projectos tão bizarros como Sunn O))) ou juntando-se a membros de Nachtmystium para interpretar um tema do álbum de Twilight, numa das suas raras incursões ao vivo.

O álbum tem uma duração invulgar para um lançamento do género, ultrapassando os setenta e nove minutos, apesar de apenas serem oito músicas. Tal também se entende, pois é suposto ser ouvido como um todo. O que se compreende ainda mais do que o habitual em álbuns longos porque a variedade, entre e no seio de cada música, é muito grande e quando ouvido com atenção (repito, não é um álbum fácil de entender, nem de audição leve) prende o ouvinte pelo mundo distorcido criado por Malefic.
É possível destacar momentos de magistral negritude, mas se não ouvido como um todo, perde-se boa parte da magia de Nocturnal Poisoning.

Falo logo da abertura, In The Hate Of Battle, com variações de ritmo frequentes e alguns dos mais agonizantes riffs do álbum. As vocalizações são, como em todo o álbum, tenebrosas, tornando o primeiro impacto do álbum, uma faixa representativa do trabalho, mas igualmente num hino de Black Metal depressivo, como só Xasthur pode produzir. Liricamente, o projecto é imperceptível sem as letras ao lado (e mesmo assim é complicado), mas está em perfeita consonância com a música a deambular entre os temas suicidas, desesperantes e/ou místicos. Neste caso, prende-se com o puro ódio:

Hatred bled onto the soul
With a fury to kill
Killed brethren
Without respect for lives unholy
A hatred possessing my soul
With a fury to kill

A homenagem a Mütiilation com Black Imperial Blood mostra bem uma das influências da banda e apesar de estar fiel ao original, é uma interpretação bem “xasthuriana” de uma das grandes faixas produzidas por Meyhna’ch no enorme ‘Vampires Of Black Imperial Blood’.

Por fim, destacar a última música, apenas com sintetizadores, fazendo lembrar muito ‘Hliðskjálf’. Forgotten Depths Of Nowhere faz jus ao nome e em jeito de despedida, lembra uma marcha fúnebre, onde já nem a dor ou tristeza têm lugar, simplesmente o vazio…

Pouco mais há a dizer, senão que Nocturnal Poisoning é uma autêntica opus misantrópica e suicida, uma viagem pela dimensão conturbada criada por Malefic, dimensão essa onde a agonia sufocante e a desolação eterna formam paisagens repetidas indefinidamente.

Conclusão
Xasthur é um projecto único, de uma mente única e pessoalmente, todo o conceito do projecto me diz muito. Depois do álbum de estreia lançou outras grandes obras. No entanto, a nível de intensidade, talvez nunca tenha igualado Nocturnal Poisoning. Não é fácil. Considero o álbum que agora acabo de descrever como um dos melhores alguma vez criados dentro do Black Metal (embora Xasthur “ultrapasse” não raras vezes, o estilo, musicalmente falando). Depois de Burzum não me lembro de algo tão fabuloso como o álbum de estreia de Xasthur.

Essencial para quem compreenda (ou queira compreender) os caminhos mais negros da mente humana, ou simplesmente para findar a própria existência.

PhiLiz
Originalmente escrito em:
PhiLiz @ WordPress

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