Introdução
Os mais brilhantes representantes da cena mais pesada de Industrial em Portugal, ultrapassam qualquer contexto em que possam ser inseridos devido à pura vandalização sonora imprimida em qualquer dos seus trabalhos. Os Bizarra Locomotiva apresentam-se como o nome indica, máquina bizarra de contornos grotescos e assassinos para os ouvidos comuns. Com uma frenética energia em estúdio, os Bizarra atingem toda a sua potencialidade ao vivo, com espectáculos absolutamente arrebatadores, onde cada sílaba é demonstração de puro ódio e fúria. Neste campo poucos os conseguirão igualar no nosso país.

Baseados no Industrial de características bem “metálicas”, a banda de Rui Sidónio & Ca. apresenta-se acima de tudo como uma agressão. Nada em BL é belo, conforme, habitual… nada na mistura selvagem da banda está dentro dos padrões habituais (o facto de cantarem em Português tem um significado enorme, mas também representa uma quebra do que costuma ser a regra no género), formando uma simbiose de niilismo musical e pura brutalidade.

Ódio é um nome directo ao que a banda tenta transmitir esta proposta de 2004. Não se vislumbra nada bonito ou calmo… aqui tudo é grotesco… e é isso que torna BL tão espectacular.

Alinhamento
01 – Gárgula
02 – Buraco Negro
03 – Fantasma
04 – Desgraçado De Bordo
05 – O Frio
06 – Usina
07 – Pedinte
08 – Moscas
09 – Tráfico De Órgãos
10 – Coisa Morta
11 – Mordo
12 – Ódio
13 – O Regresso

Ano 2004

Editora MetroDiscos

Faixa Favorita 10 – Coisa Morta

Género Industrial

País Portugal

Banda
BJ – Máquinas
Miguel Fonseca – Guitarra
Rui Berton – Bateria
Rui Sidónio – Voz

Review
Ódio apresenta-se em primeiro lugar como um álbum bastante mais directo e pesado do que o seu sucessor, o conceptual Homem Máquina, momento mais experimental da banda. Aliás, Ódio é o primeiro álbum “não-conceptual” desde Bestiário, o que representa por si só uma mudança.

No entanto, a maior mudança ocorrida no seio da banda, foi a saída do compositor principal e fundador, Armando Teixeira (que entre muitos projectos pertenceu aos… Da Weasel) que abandonou a banda após Homem Máquina.

As dúvidas em relação à direcção da banda eram muitas, mas assim que se ouve Rui Sidónio com uma acidez venenosa a proclamar: Ela riu-se para mim com aquela boca mortiça… – percebe-se que a brutalidade e a violência estão de volta e substituem o experimentalismo…

Apesar de mais violento, agressivo e acima de tudo com uma carga negativa megalómana (no melhor sentido), o álbum não se torna menos interessante ou fácil de digerir. As letras perturbantes, niilistas e bizarras de Rui Sidónio são um dos principais factores deste renovado poder da banda. Tudo o resto está em consonância: se a voz é gutural e as letras morféticas, toda a máquina é poderosa, maquiavélica e com o único objectivo de se tornar uma autêntica dilaceradora para todos os tímpanos com que se cruze.

A entrada do guitarrista Miguel Fonseca (conhecido de várias bandas nacionais, incluindo os grandes Thormenthor, nome grande do Death Metal português no início dos anos 90), pelas suas influências óbvias foi certamente um dos grandes responsáveis pelo regresso à brutalidade em doses industriais que a banda apresenta em Ódio. Com riffs inflamados, com uma melodia peculiar (ouça-se “O Frio”), o guitarrista assumiu ainda o papel de compositor principal e diga-se de passagem que este “regresso às origens” da banda deve-se em muito a este facto (o que não deixa de ser irónico devido a ser um membro novo).

Uma outra figura incontornável da banda é o responsável pela dita maquinaria, BJ, também responsável pelos “back vocals” e que assume uma dimensão ainda maior ao vivo, onde é uma figura “sui generis” devido à sua tresloucada presença em palco. Neste trabalho BJ, bem como a bateria de Rui Berton apresentam-se como o coração da máquina, contribuindo para todo o caos que invade o álbum.

Todo o álbum está pulverizado de metáforas infectadas que lidam com decadência, niilismo, situações de completo nojo e claro, ódio. As letras de Sidónio são directas e bem explícitas, mas no seu todo transmitem uma mensagem inteligentemente destrutiva. Não é poesia bela e profunda, é um liricismo rasgante e fracturante, onde o grotesco e o putrefacto assumem um papel preponderante na banda. Aliás, para além das letras, a é verdade que Bizarra Locomotiva não poderia ter um vocalista diferente. Em gutural e cuspindo agressão, Rui Sidónio é provavelmente a marca mais distinta da banda (mesmo ao vivo onde todos os cenários à volta da banda são peculiares) e que em Ódio é um dos responsáveis pelo sentimento que o nome do álbum indica.
Para a mensagem passar bem a produção é clara e bem conseguida, tornando a experiência auditiva mais cristalina… mas para se pode ouvir correctamente a barulhenta máquina!

Não sendo um álbum conceptual, os temas das músicas apresentam semelhanças, sendo que a originalidade das letras não deixa que estas se tornem de forma alguma menos interessantes.
O álbum apresenta um autêntico desfilar de músicas frenéticas e massacrantes, como é o caso da trilogia, Buraco Negro, Fantasma e Desgraçado De Bordo, esta última que para além de ser uma das mais bem conseguidas faixas do álbum apresenta um tom niilista que se saúda:

Desgraçado de bordo
Recusou as oferendas
Recusou a moral
Recusou a vida

Outro dos momentos altos do álbum está no genial Frio, com os riffs melódicos e uma áurea misteriosa, bem como a genial letra fazem desta faixa uma das melhores músicas de toda a carreira de Bizarra. Ao vivo, a música assume uma genialidade ainda maior, com a encenação teatral de Rui Sidónio e BJ, resultando sempre num dos momentos alto dos concertos.

O tom de raiva em Pedinte (ao qual “só os malditos acodem”) integra-se com um sentimento quasi-misantrópico que a música apresenta. Apesar de mais experimental mantém a grande intensidade. Numa linha lírica paralela temos Moscas, com mais putrefacção ainda. A letra revela sentimentos de ódio para com o próprio ser (numa possível alegoria entre moscas e o próprio homem) e algumas das suas características…

O meu desgosto é profundo
Sinto-me a mais neste mundo
O meu cheiro é nojento
E no meu ventre o lamento

Após mais um momento de respiração em Tráfico De Órgãos, segue-se a melhor música do álbum. Coisa Morta trata-se de uma faixa com ritmos palpitantes, letra macabra e acima de tudo de grande genialidade. O refrão assume o papel de um constante martelar, não só pela voz, mas através da máquina infernal que faz questão de demonstrar toda a sua fúria.

Coisa morta
Lembras-me quem sou
Coisa morta
Lembras-me o que sou

Por último, destaque para Mordo e a faixa-título, três minutos sem qualquer contemplação e de puro ódio (e neste caso no sentido mais literal possível) e de com o ritmo a acelerar consideravelmente.

O folgo é pouco no fim dos quase quarenta e cinco minutos, sobrando o sangue que jorra dos ouvidos de quem aguentou o massacre sonoro de Ódio.

Conclusão
Bizarra Locomotiva e este álbum em particular, não são de todo acessíveis. No espectro do Industrial a banda apresenta elementos violentos e poderosos (a associação ao Metal é inevitável), sendo que por outro lado os elementos electrónicos podem afastar quem está mais habituado a sonoridades pesadas. Como se não bastasse as vozes guturais não são propriamente dos elementos mais fáceis de assimilar…

Mas são precisamente estas características únicas que tornam a banda numa das mais criativas, inventivas e geniais produções portuguesas. Ódio dá uma prova de maturidade e força (odiosa saiba-se!) e prova que o estatuto de melhor banda nacional do estilo é inegável.

PhiLiz
Originalmente escrito em:

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