Introdução
Bem antes de todo o barulho feito à volta de alguns projectos da mente criativa que se dá a conhecer como Neige (falo claro de Peste Noire, Amesoeurs e claro, Alcest), a junção de esforços entre duas das mais proeminentes figuras do Black Metal francês pós-LLN (embora Noktu tenha uma pequena conexão com este último movimento) resultou numa obra-prima melancólica, depressiva e incomensuravelmente bela.

Ao contrário dos já mencionados projectos ambientais de Neige, ou das participações de Noktu em álbuns mais virados para o Black Metal tradicional (a malograda colaboração luso-francesa de Genocide Kommando ou Gestapo 666), este álbum de Mortifera tem parecenças enormes com o principal projecto de Noktu, isto é, Celestia. Aliás, a última música é, inclusive uma cover de Celestia. Musicalmente as parecenças são mais que muitas, mas Mortifera surge menos “raw” e talvez um pouco menos agressivo, sendo mais melancólico e genuinamente triste.

Tratando-se desde logo e um álbum de Black Metal, Vastiia Tenebrd Mortifera surge como um álbum que passa de maneira genial toda a áurea de mistério, tristeza e desesperante que está bem patente nos poemas de um dos mais brilhantes poetas franceses de sempre, falo de Charles Baudelaire. As duas melhores faixas são de resto a “banda sonora” de dois excertos das famosas Fleurs Du Mal, a mais conhecida obra de Baudelaire.

Este é apenas mais um factor de interesse, num álbum onde tudo se movimenta de forma brilhante entre o Black Metal, a literatura, o mistério e acima de tudo a melancolia.

Alinhamento
01 – Fbrahgments
02 – Le Revenant
03 – A Last Breath Before Extinction
04 – Epilogue D’Une Existence De Cryssthal
05 – Ciel Brouille
06 – Abstrbve Negabvtiyon Rebssurectyion
07 – Aux Confins Des Tenebrss

08 – Fruits Of A Tragic End

Ano 2004

Editora GoatowaRex

Faixa Favorita 05 – Ciel Brouille

Género Depressive Black Metal

País França

Banda
Neige – Baixo, Bateria, Guitarra, Voz
Sir Noktu Geiistmortt – Baixo, Bateria, Guitarra, Voz

Review
Vastiia Tenebrd Mortifera é uma das mais geniais obras de Black Metal que alguma vez ouvi. Isto é preciso ficar bem claro, uma vez que influencia toda a minha visão global do álbum.

A dupla Neige/Noktu exibe todo um conjunto de emoções num quadro negro e sem qualquer tonalidade que pinte a esperança. O sentimento melancólico assume uma importância central neste álbum de Mortifera, no sentido que ele é elo de ligação dos dois maiores pólos que envolvem o álbum: Literatura e Black Metal. Tudo o que sai dos instrumentos emana tristeza, melancolia, ódio, desespero, somando tudo: sentimento. É um álbum vincado por estes mesmos factores e precisamente por este motivo se torna uma obra que toca aspectos que são raramente abordados, mesmo num género como o Black Metal.

Como não podia deixar de ser, a voz é o elemento mais fácil de entender enquanto forma de expressão. Fá-lo de maneira brilhante: em gutural, mas com autênticos gritos de dor e angústia. A tortura que mergulha tudo na total tristeza e desolação. Ambos os compositores do álbum assumem a posição de vocalista.
A voz em Mortifera é um dos elementos mais singulares do projecto. Ora cheia de ódio, ora na representação quase dramática dos poemas de BaudelaireCiel Brouille, clímax do álbum é a representação máxima deste aspecto -, a voz trata-se de algo quase persecutório, na eterna lembrança da dor e melancolia que o álbum carrega.

Acompanhando isto, temos as guitarras, num movimento conjunto com as vocalizações. Guitarras com distorção acentuada, com alguns momentos acústicos (ou semi-acústicos pelo menos) e riffs dolorosos, que resultam em espasmos sonoros da maior beleza.
É de resto este, um dos pontos de interesse do álbum a nível emocional, porque apesar da melancolia dominante, Mortifera, invade acima de tudo com o belo, numa simbiose brilhante que nos poderá levar a concluir, que em Vastiia Tenebrd Mortifera se leva ao expoente máximo tudo o que é tristemente belo.

Incrivelmente, o baixo, em consonância com tudo o resto já mencionado, representa um instrumento de negritude. Não raras vezes surge de forma importante como em Le Revenant ou A Last Breath Before Extinction. Quanto à bateria, é (quase) sempre executada a “mid-tempo”, tal como de resto, todo o álbum se apresenta.

Falando de todas as enormes faixas aqui presentes é preciso destacar que não existe uma única abaixo do nível altíssimo do álbum, mas há momentos memoráveis e que pela sua beleza imensa abrilhantam ainda mais este enorme trabalho. Abrimos com Fbrahgments, uma introdução instrumental, mas já bastante dentro daquilo que o álbum oferece, ou seja, uma áurea negra e melancólica.

Após este momento, somos presentados com Le Revenant, a primeira grande faixa do álbum. Baseado no poema de Baudelaire com o mesmo nome (que significa “O Fantasma” e está presente em Les Fleurs Du Mal), apresenta-nos uma combinação de riffs distorcidos e melancólicos (o primeiro é especialmente soturno), juntamente com um envolvimento misterioso e uma lírica tortuosamente interpretada, mantendo toda a sua enigmática beleza. Aqui podem encontrar a tradução do poema e deixo igualmente, por inteiro, o original em Francês:

Comme les anges à l’œil fauve,
Je reviendrai dans ton alcôve
Et vers toi glisserai sans bruit
Avec les ombres de la nuit,

Et je te donnerai, ma brune,
Des baisers froids comme la lune
Et des caresses de serpent
Autour d’une fosse rampant.

Quand viendra le matin livide,
Tu trouveras ma place vide,
Où jusqu’au soir il fera froid.

Comme d’autres par la tendresse,
Sur ta vie et sur ta jeunesse,
Moi, je veux régner par l’effroi.

Partimos então para um momento completamente suicida, refiro-me à terceira faixa, A Last Breath Before Extinction. O gutural é mais profundo, com uma dor mais visceral a ser representada, mas os riffs continuam na sua toada melancólica e sufocantemente triste. A força da composição é apenas interrompida perto por um momento acústico, onde os lamentos de uma alma torturada e prestes a extinguir-se dão um final apropriado a tão angustiante existência.

Seguirmos com um momento acústico e instrumental em Epilogue D’Une Existence De Cryssthal, antes da opus das opus do álbum: Ciel Brouille (que se pode traduzir de grosso modo em “Céu Turbulento”). A segunda e última faixa baseada num poema de Baudelaire, é o momento mais singular de todo o álbum e também o mais brilhante. Desde o primeiro riff melancólico, acompanhado por todos os outros instrumentos, até à voz que se apresenta mais triste do que nunca, tudo é perfeito. Uma interpretação negra, muito negra, de um interrogativo e enigmático poema do autor francês. A última secção da música assume tons quase de loucura… com a voz a transformar-se apenas num meio transmissor de toda a explosão de emoções que dela emana. Brilhante e belo, muito belo. Vale a pena constatar a beleza lírica da música, seja na sua versão traduzida para Inglês ou na versão original que deixo também aqui:

On dirait ton regard d’une vapeur couvert ;
Ton œil mystérieux, — est-il bleu, gris ou vert ? —
Alternativement tendre, doux et cruel,
Réfléchit l’indolence et la pâleur du ciel.

Tu rappelles ces jours blancs, tièdes et voilés,
Qui font se fondre en pleurs les cœurs ensorcelés,
Quand, agités d’un mal inconnu qui les tord,
Les nerfs trop éveillés raillent l’esprit qui dort.

Tu ressembles parfois à ces beaux horizons
Qu’allument les soleils des brumeuses saisons ;
— Comme tu resplendis, paysage mouillé
Qu’enflamment les rayons tombant d’un ciel brouillé !

O femme dangereuse ! ô séduisants climats !
Adorerai-je aussi ta neige et vos frimas,
Et saurai-je tirer de l’implacable hiver
Des plaisirs plus aigus que la glace et le fer ?

Após este momento tão extraordinário, a última parte do álbum é igualmente bela. Abstrbve Negabvtiyon Rebssurectyion e Aux Confins Des Tenebrss são duas músicas brilhantes, cada uma de forma diferente. Enquanto que a primeira, das faixas mencionadas, é uma dolorosa passagem, com um gutural sofredor por entre o som depressivo, a penúltima faixa do álbum apresenta-se como uma peça acústica, com a sua quietude quebrada apenas pelos gritos de dor no seu final.

Esta obra-prima termina com a cover de Celestia, fiel ao original, mas numa toada mais lenta e com os vocais mais condizentes com este projecto. O mesmo será dizer que é mais um momento negro e triste, tal como é de resto todo o clima do álbum.

Conclusão
Vastiia Tenebrd Mortifera representa uma das mais brilhantes obras de Black Metal do século XXI. Dos climas mais extraordinariamente melancólicos do género e acima de tudo, com uma genial interpretação de sentimentos por parte dos membros do projecto, sendo que neste último aspecto dificilmente se encontra álbum tão magnífico.

Não se deverá deixar que os últimos projectos de Neige evoquem uma percepção antecipada do que aqui se encontra. Trata-se de um álbum triste e melancólico, mas acima de tudo, uma obra-prima de Black Metal.

PhiLiz
Originalmente escrito em:

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